Mais de 3500 brasileiros fizeram do calçado e do couro o seu sonho chinês. Na cidade de Dongguan, na província de Guangdong, ouve-se português com sotaque brasileiro a cada esquina. Chegaram como empregados, fixaram raízes e tornaram-se empresários de negócios que servem uma comunidade que não pára de crescer.

Dongguan, a 50 quilómetros de Cantão e a 90 de Shenzhen, é mais uma daquelas histórias do milagre económico chinês. Em 25 anos deixou de ser uma vila de pescadores para se transformar num centro industrial de sete milhões de habitantes. E há 15 anos é a casa de uma comunidade crescente de 3500 brasileiros que agora chamam a China de casa.

O fenómeno da imigração brasileira para Dongguan começou em meados da década de 90 com a necessidade de mão-de-obra especializada para trabalhar no sector dos calçados e do couro. A indústria chinesa transformava-se na maior força exportadora do mundo, enquanto a brasileira perdia espaço no mercado interno e internacional.

Produzir um par de sapatos no Brasil hoje custa 50 por cento mais do que em Dongguan. Para as empresas brasileiras que viviam da exportação, isso significou sair do negócio. E reabri-lo onde as condições fossem mais estáveis. Os brasileiros foram para a província de Guangdong porque os empregos deles já se tinham mudado para a China.

A Paramount, a maior empresa de calçados sob a responsabilidade de um empresário brasileiro, teve de ir buscar ao Brasil o que lhe fazia falta: empregados especializados. Desde 1995 na cidade, a companhia emprega 80 brasileiros que fazem a intermediação entre os grandes clientes mundiais e as fábricas de calçado na China. Em 2009, por exemplo, a Paramount produziu 35 milhões de pares de sapatos para uma única grande marca norte-americana, valor equivalente a 21 por cento dos 166 milhões de pares exportados pelo Brasil no mesmo ano. Com a definição das características do sapato, a Paramount terciariza a produção para mais de uma dúzia de fábricas chinesas, gerando milhares de postos de trabalho.

Todos os brasileiros, a maioria proveniente da região do Vale do Sino, um grande produtor de calçado no Estado do Rio Grande do Sul, são especializados em alguma parte do processo de fabricação de calçado. E continuam a chegar, apesar de os salários terem caído nos últimos tempos devido ao aumento do número de candidatos disponíveis para cruzar o mundo.

Depois de estabelecidos, dão o salto para montar os seus próprios negócios também no sector do calçado ou do couro, ou gerir pequenas e médias empresas que atendem as necessidades da comunidade.

“Os brasileiros em Dongguan dão um colorido verde-amarelo à cidade, como se percebe quando alguém a visita. Essa presença, além de contribuir para o desenvolvimento da região, que beneficiou da tecnologia brasileira e da criação de empregos resultantes de investimento, serviu para tornar o Brasil e a sua cultura conhecidos neste canto da China”, aponta Kywal de Oliveira, cônsul-geral do Brasil em Cantão.

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Estimulados pela promessa de sucesso profissional, os brasileiros superam barreiras como o idioma, a comida ou a distância de 18 mil quilómetros. Aterram sem nenhum conhecimento de inglês ou chinês, mas em poucos meses começam a dominar ambas as línguas.

A qualidade de vida, a par da segurança, é o que mais os tenta a querer ir ficando. Não é para menos. O Governo de Dongguan moveu mundos para tornar a cidade mais verde. Proíbe a circulação de motos e deslocou o parque industrial para fora da zona urbana, transformando a cidade num oásis com baixos níveis de poluição e muita arborização.

No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) registou um aumento de 8,5 por cento e as exportações subiram 18 por cento. Mais deve vir. A Foxconn, responsável pelos componentes para os produtos da Apple, vai investir 640 milhões de yuans na construção de uma fábrica na cidade, que deve gerar mais de 2000 postos de trabalho. Está também em construção o metro e a linha de alta velocidade, que irá reduzir a distância entre as grandes cidades chinesas.

Há 15 mil empresas fundadas por estrangeiros e o Governo municipal estima que haja 10 mil pessoas de 40 nacionalidades a viverem de forma fixa na cidade. Desde há cinco anos, quando houve um boom de estrangeiros a chegar para a indústria dos móveis, outro motor de Dongguan, floresceram restaurantes com comidas dos mais variados lugares do mundo e escolas internacionais. Para facilitar a inclusão social, a Biblioteca Central inaugurou recentemente um piso inteiro com livros estrangeiros. Entre as 32 mil obras, há uns quantos clássicos da literatura brasileira e portuguesa.

Mas nem tudo tem sido pêra doce. A comunidade brasileira sente falta de saber o que se passa a sua volta em português. Não há nenhum meio de comunicação local em língua portuguesa e até mesmo a religiosidade anda em baixa. Sem igrejas cristãs na cidade, os brasileiros têm de percorrer quilómetros até Macau para a missa ou organizarem cultos considerados ilegais na China.

Ainda assim, a tendência ascendente, segundo Kywal de Oliveira, é para continuar. A cada seis meses, cerca de 6000 empresários saem do Brasil directamente para Guangdong, para participar na Feira de Cantão e tentar firmar parcerias com empresas locais. Esse fluxo tem gerado uma procura inédita de tradutores chinês-português, com uma forte aposta das empresas chinesas em quadros fluentes em língua portuguesa.

“A China é um fenómeno de crescimento, facto ao qual não se pode ser indiferente sob pena de perder-se o passo em relação à História. A China já é o nosso segundo parceiro comercial, com investimentos muito importantes no Brasil. Estes dois aspectos já são suficientes para explicar o interesse que desperta no empresariado brasileiro”, frisa o cônsul-geral em Cantão.

Reportagem completa em

http://www.revistamacau.com/index.php/china/3616.html

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