Como os portugueses vêem os brasileiros em Portugal?

Como os portugueses vêem os brasileiros em Portugal?

Integrados, sim, participativos, sim, com melhor nível de vida, sim. Em todos os outros tópicos, como qualificações laborais, credibilidade e fenómenos de marginalidade, os respondentes ao inquérito online SAPO/Netsonda deram respostas maioritariamente negativas.

São bons trabalhadores? Estão integrados? Vivem melhor em Portugal do que no Brasil? Estas foram algumas das questões que o inquérito online SAPO/Netsonda colocou ao longo da semana e que recolheu 5318 respostas.

O primeiro grupo de questões prendia-se com integração no mundo do trabalho. 49 % dos respondentes consideraram que os brasileiros não são bons trabalhadores contra 38% que os vêem como bons trabalhadores. Sobre o grau de qualificações, as respostas são mais extremadas: 74% responde que não são qualificados e apenas 14,2% consideram o inverso.

Para a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Raquel Patrício, doutorada em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, “esta avaliação expressa muito bem a percepção existente sobre a comunidade brasileira ou sobre o brasileiro médio”. Explica porquê: “Há 20 anos, a imigração brasileira para Portugal era qualificada, situação que se alterou com o fluxo massivo de cidadãos brasileiros que escolheram Portugal como destino nos anos 90, muito impulsionados pelas dificuldades no país natal decorrentes do Plano Real e atraídos pelo Portugal da Europa e do euro. Um país que fala a sua língua e que tem um clima, apesar de tudo, mais semelhante que a maioria dos países europeus”.

Nessa primeira grande vaga, Portugal assemelhava-se a uma espécie de El Dorado, afirma a investigadora, e a caracterização demográfica era muito assente em pessoas de baixo rendimento e elevada mobilidade, à qual se seguiu uma segunda vaga de familiares e amigos. Sendo que, em simultâneo, a imigração mais qualificada parou. “Hoje é de esperar inclusive uma retracção do fluxo migratório brasileiro global, muitos regressaram e outros vão regressar. A imigração qualificada não é significativa, porque no actual momento da economia brasileira há emprego qualificado no país de origem”.

Questionados sobre a integração na comunidade portuguesa, a maioria dos respondentes avalia este item pela positiva , com 56% das respostas a dizerem que os brasileiros estão integrados e 36% a considerarem o inverso. Uma nota negativa fecha este primeiro painel, com 64% a considerarem que os imigrantes brasileiros não são credíveis e fiáveis e 21% a pronunciarem-se pela resposta positiva.

“A comunidade brasileira está, de facto, muito bem inserida, curiosamente serão até mais participativos em Portugal do que no Brasil”, afirma Raquel Patrício. Uma análise que cola também com a pergunta sobre o nível de participação da comunidade brasileira face a outras comunidades imigrantes, com 49% a considerar ser mais participativa (35% considera igual às demais).

O segundo painel de questões prendeu-se com o nível de vida. E aqui a maioria das respostas foram no sentido de Portugal oferecer aos imigrantes brasileiros um padrão de vida superior ao que teriam no Brasil (72%). O que pode já não corresponder exactamente à realidade. “Nos mandatos Lula, sobretudo no segundo, assistimos ao aparecimento de uma classe média brasileira que resulta não do empobrecimento das classes altas, mas do enriquecimento das classes mais baixas”, refere a investigadora do ISCSP.

Esta classe média, continua, foi o grande alvo de “políticas sociais muito criativas, como a Bolsa Família, que atingiu 11 milhões de famílias, a Bolsa Escola, que ofereceu lanche na escola,a Cesta Básica e o programa Luz para Todos”. Para além da elevação do nível de vida, esta mudança na sociedade é hoje um forte motor da economia, porque é esta classe média que consome os produtos nacionais, que por sua vez fazem “mexer” a economia, enquanto as classes mais altas ainda consomem muitos produtos de importação.

Se, das respostas ao inquérito, se retira a conclusão que, para os portugueses, os brasileiros ainda vivem melhor em Portugal do que no Brasil, também é verdade que os mesmos inquiridos consideram, de forma muito expressiva, que o gigante do outro lado do Atlântico deu mesmo um grande salto nos últimos 10 anos. Questionados sobre o estádio de desenvolvimento actual do Brasil, reina quase unanimidade: 83% consideram hoje o Brasil um país mais desenvolvido que há 10 anos.

A imagem que os media transmitem da comunidade brasileira é vista, maioritariamente, como “neutra” (42%), ainda que 36% das respostas afirmem ser “negativa”. O que poderá, de alguma forma, ter impacto na associação da comunidade brasileira em Portugal a fenómenos de marginalidade, outra das questões no inquérito. A maioria dos respondentes estabelece essa associação (62%), mas cerca de 1/3 responde que não (33%). “Segundo dados da Polícia Judiciária, há correlação entre o crescimento da imigração brasileira e o aumento do número de crimes com armas de fogo. O que obviamente não pode ser generalizado à comunidade”, ressalva Raquel Patrício.

SAPO Notícias

02 de Outubro de 2010

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Comentário de Elisabete Montero em 17 outubro 2010 às 19:07
Caro Luís, obrigada pela leitura reflexiva das minhas colocações, E continuando a aprofundá-las, também desconheço o ensino da língua estrangeira com um recorte semiótico.Já quanto à análise discursiva, há alguns livros , pelo menos para o ensino do francês, em que percebo subjacente à prática da língua a presença de um viés discursivo, ou poderia se dizer quanto à função da estrutura frasal, através dos atos de fala: você sabe como recusar um convite, você sabe como comprar um presente, fazer uma reserva no restaurante e assim por diante. Nesta avaliação do que se aprendeu nos diálogos e , na passagem, de reelaboração em autonomia, percebo o trabalho de análise do discurso que deve ser explcitado pelo professor, e nem sempre o professor explica ao aluno o porquê de tais arranjos linguísticos.
Sugeri o tema novelas para o chat deste site que foi ampliado para programas de televisão. No meu entender, as novelas constituem um fonte de riqueza linguistica, socio-cultural que , muitos de nós, consideramos como um substrato da nossa cultura. Entretanto, as novelas são um dos maiores produtos visuais exportados para outros países, ainda me lembro da "Escrava Isaura"(1976) um dos maiores sucessos em telenovelas apresentados em mais de 40 países. inclusive Cuba e China.Trazendo a discussão para a língua portuguesa, Angola é um dos países alvo das novelas brasileiras, e há entre as mulheres angolanas, o desejo de se pentearem como as artistas das novelas, inclusive há uma população brasileira trabalhando em várias áreas : construção civil, hospitalar, jornalística, petrolífera e prestação de serviços, no caso, a reportagem foi com uma cabelereira brasileira. Exportamos a técnica da escova progressiva de alisamento de cabelos, pois foi uma tendência televisiva no Brasil, cabelos longos e lisos.O que vai de encontro com a nossa população que , normamente, apresenta cabelos crespos. Este é um viés a ser explorado em sala de aula, por isso que levanto a bandeira da educação para as mídias. Espero continuarmos esta rica discussão com outras contribuições interessantes.
Comentário de Luis Gonçalves em 16 outubro 2010 às 14:58
Elisabete, super interessante o seu comentário. Você não diria que essa formação, ou o treino na decodificação da mídia deveria ter também um papel central em PLE? Afinal de contas, os nossos estudantes precisam de ter a destreza de interpretar criticamente as imagens dos nossos paises que lhes são oferecidas, muitas vezes de forma gratuita, pela mídia local.
Agora que você falou isso, fiquei a pensar, até fui passar os olhos pelos livros de PLE que tenho aqui em casa, e me parece que nenhum livro aborda essa questão especificamente. Eu acho que a ideia é que se nós ensinarmos a cultura dos nossos paises, os estudantes vão ter as ferramentas para fazer essa leitura crítica, mas eu concordo com você: a mídia apresenta mensagens taxativas codificadas a um nível muito sofisticado, e se mesmo os nativos têm dificuldade em interpretá-las criticamente, imagine os não nativos...
O Flat Classroom Project é uma iniciativa que junta duas aulas em dois países diferentes para que os alunos ganhem competência ao nível da informática e do trabalho virtual através de trabalho colaborativo em linha. Depois de ler o que você escreveu, fiquei a pensar que existe aqui um espaço para se fazer um trabalho paralelo com a competência de análise do discurso e da mídia de uma forma intercultural que poderia ter bastante impacto na formação do estudante, porque o seu ponto de vista criado dentro de um contexto cultural específico estaria constantemente a ser desafiado e verificado por um outro ponto de vista com um referencial cultural completamente diferente.
Vou pensar mais neste assunto e vou ver consigo conceber um projeto para o Global Education Iniciative - claro que te darei o devido crédito :)
Comentário de Claudia Coelho em 16 outubro 2010 às 14:57
Sim, Luís ainda hoje há gente que pensa que galego e português é o mesmo. Alunos me dizem que é igual, logo começam as aulas e vejo os problemas que têm. O pior para aprender um idioma é a comparaçâo de conteúdos. Até podes fazer mentalmente com caráter para facilitar a aprendizagem mas, nâo com outro fim.
Quanto aos "códigos culturais" que falas, notei isso faz anos. Iniciei uma Licenciatura na Espanha um pouco diferente da minha atual, mas foi realmente terrível. Foi a experiência educacional mais estranha que senti e o resultado foi desasatroso e negativo, ou seja, nâo avançava. Por isso, dei tempo, fui trabalhar num ramo de línguas e agora voltei mas, numa universidade portuguesa porque estou relativamente perto de Portugal. A experiência é outra. Há ambiente e os resultados sâo satisfatórios. Resumindo, os professores na Espanha (de nenhum nível educacional) estâo pouco preparados para ser docentes. Já em Portugal vejo mais "jeito" (rsrsrsrsrsrsr!!).
Até outra!
Comentário de Luis Gonçalves em 16 outubro 2010 às 14:41
Ah! Entendi, no entanto, eu não acho que exista um corte linguístico com a Galiza. Talvez seja porque eu estudei no norte de Porto, onde existe um continuo linguístico entre a Galiza e o norte de Portugal que nenhuma fronteira política consegue apagar. Com o sul da Espanha já não acontece o mesmo, obviamente, porque falamos línguas diferentes, mas nem a nível cultural. Os códigos culturais espanhóis são desconhecidos para nós (deduzo que o contrário seja o mesmo). Eu vivi em Sevilha e senti muito estranhamento, eu simplesmente não conseguia entender as relações interpessoais e as dinâmicas de grupos espanholas por serem tão idiossincráticas. Foi muito interessante. Sinto muito menos estranhamento com os brasileiros: os conceitos deles de amizade, amigos e conhecidos são-me muito mais familiares e as dinâmicas de grupos coincidem com a minha vivência. Nem vou falar do estranhamento com os EUA que esse é outro tópico, mas o conceito de amizade aqui é completamente diferente.

Agora, quanto a questão histórica, quando Portugal ficou independente do Reino de Leão, a palavra Espanha nem existia, foi inventada durante a união das coroas ibéricas (que não dos governos) 300 anos mais tarde, e quando Portugal restaurou a independência, os reis da "Hispânia" recusaram deixar cair o título, porque, toda a gente sabe, que é mais fácil cortar o pescoço a um rei que retirar-lhe um título...
Comentário de Claudia Coelho em 16 outubro 2010 às 14:23
Ah! Luis estava a referir-me sobre o Reino de Espanha e Portugal do Norte. (questâo histórica, Felipe II...........)
Quanto à unidade linguística é sobre o galego-português. Também sou galego-falante, entâo antigamente era somente uma unidade linguística (sec. XIV) até que Portugal se independizou e criou uma norma escrita, etc.....
Isso foi o que eu estava a comentar.
Comentário de Luis Gonçalves em 16 outubro 2010 às 11:28
Claudia, tudo de acordo, agora "Nós (portugueses e espanhóis) éramos uma naçâo só que foi dividida (até tínhamos uma mesma unidade língüistica) porque agora estamos a falar dos irmâos?" isso nunca aconteceu, a península nunca foi uma unidade política nem linguística, pelo contrário, o que nós temos hoje é uma pequeníssima parte da diversidade que tínhamos.
Comentário de Claudia Coelho em 16 outubro 2010 às 5:10
Olá (novamente),

Juntando-me a essa discussâo novamente, queria ressaltar que esse pensamento nâo é unânime. Há portugueses muito receptivos e abertos ao povo brasileiro que adoram a cultura e outros aspectos mas, há muitos que nâo. Precisamos saber que os brasileiros em Portugal sâo emigrantes e existe o típico pensamento que existe cá na Espanha também de que emigrante "tira o posto de trabalho". Isso existe em todo o mundo.
Já no campo da educaçâo, os meus colegas lusos, comigo sâo muito atenciosos, as professoras também sâo. Procuro que eles vejam que nâo estou ali para competir e que sou uma cidadã educada em 3 culturas diferentes e muito orgulhosa de tê-las. E defendo sempre as três porque, para além disso, vivo também de meu trabalho como professora desses idiomas. Desse modo, eles deixam de me ver como "a competência" e me vêem como aluna da Universidade e professora em horas livres. Entretanto, posso citar uma situaçâo que aconteceu no curso passado, tinha uma colega que sempre me olhava um pouco desconfiada e quando eu falava nas aulas ( tenho que falar às vezes porque faço Licenciatura Inglesa-Alemâ) ela estava sempre com cara de mau-humor e chateada era tâo claro que eu percebia. Um dia falei com ela e, deixei que ela percebesse que o estereótipo que ela estava tendo de mim era equivocado, a partir daquele dia começou a modificar comigo e inclusive teve alguns detalhes para com a minha pessoa no final do semestre. Enfim, que essas coisas acontecem e que cá na Espanha os pensamentos que têm dos portugueses também sâo negativos (tabaréus, povo pobre....) e isso sempre combato porque como digo: Nós (portugueses e espanhóis) éramos uma naçâo só que foi dividida (até tínhamos uma mesma unidade língüistica) porque agora estamos a falar dos irmâos?
temos sempre que como disse o Luís "dar a volta" ao caso e tentar fazer com que vejam as coisas desde outros prisma, nâo tâo radical.
Comentário de Elisabete Montero em 15 outubro 2010 às 20:15
Jogando a discussão para o campo da educação, a conversa é outra. Como educadora , creio faltarem algumas disciplinas basilares no ensino médio, uma delas é ensinar o uso da língua portuguesa pela análise discursiva,uma outra seria educação para as mídias.Se isto acontecesse desde da época em que o discurso passou ser considerado ciência, essas generalizações enviesadas não seriam tão facilmente assimiladas e repetidas como verdades absolutas. Um longo caminho a ser percorrido, mas a sua atuaçãp como professor já acena positivamente para um novo olhar sobre a questão, que outros sejam seus seguidores.
Comentário de Luis Gonçalves em 15 outubro 2010 às 16:03
É possível, mas acho que como educadores é irresponsável criar percepções a partir de experiências individuais... esse tipo de lógica de bom senso têm sido a responsável pela produção de grande narrativas equivocadas que recorrem ao exemplo pessoal para se sustentárem, o que é um artifício retórico muito poderoso e impactante, mas intelectualmente duvidoso. Por exemplo, eu passo aulas a explicar aos meus alunos que os brasileiros não odeiam os norte americanos, apesar de todos terem tido ou saberem de quem teve situações estranhas no Brasil. É importante que eles aprendam a ter uma reflexão crítica mais profunda e que entendam que não podem criar a percepção do povo brasileiro e do Brasil em relação aos EUA baseado nessas experiências. E faço isto de uma forma muito simples: coloco a história do avesso... muitos brasileiros têm más experiências nos EUA, devemos portanto concluir que os norte americanos e os EUA odeiam os brasileiros e o Brasil?
Quando coloco as coisas nesses termos, eles conseguem colocar tudo nas suas devidas proporções e deixam de fazer afirmações totalitárias.
Comentário de Elisabete Montero em 15 outubro 2010 às 10:48
Pelo depoimento da Claúdia , acho que não podemos ser tão otimistas, não é mesmo? Ainda assim, creio que haja várias variáveis que determinam percursos distintos na acomodação dos estrangeiros em outras comunidades. Mas há fatos , mesmo que sejam pontuais, que apimentam as relações entre as duas comunidades. Como você tenho um ex-colega professor que estudou em Coimbra voltou falando o português com o sotaque ao ser questionado disse que era "obrigado" a usar o sotaque luso em aulas para poder ser ouvido pelo "professor Doutor". Interessantíssimo, o depoimento de um outro ex-colega de afculdade foi a Portugal fazer uma pesquisa, e usava a língua inglesa como meio de comunicação ,pois dizia que os prtugueses davam informações erradas quando sabiam que se tratava de um brasilerio. Parece-me que as relações sociais luso-brasileiras ainda precisam ser azeitadas para usar um termo bem português.

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